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'Vidas Contadas': Atrás das grades, condenados mencionam medo, raiva e vingança ao relembrar assassinatos

26 ABR 2018Por Redação/OJ09h:00

O que faz uma pessoa sentir vontade de colocar fim à vida de outra? O elo entre as histórias de dois garotos internados na Fundação Casa Maestro Carlos Gomes, em Campinas (SP), e dois presos no Centro de Progressão Penitenciária (CPP) em Hortolândia (SP), passa por sentimentos desmedidos. Raiva, medo, vingança e ciúmes resultaram em três homicídios, uma tentativa e arrependimentos.

Na terceira reportagem da série "Vidas Contadas", do G1 em parceria com a EPTV, você confere o que mudou na vida daqueles que tornaram-se os algozes por trás das estatísticas de mortes violentas. Nos relatos, as rotinas em meio às grades, os sentimentos, o que aprenderam e pretendem fazer quando voltarem à liberdade.

'Atirei por medo'

Se não fosse pela calça marrom e a camiseta branca, roupa típica do sistema prisional, e o local da entrevista, o Centro de Progressão Penitenciária (CPP) de Hortolândia (SP), dificilmente alguém diria, ao olhar ou conversar, que João, de 31 anos, é um condenado por homicídio.

Cumprindo pena de oito anos por matar um vizinho em 2009, esse piauiense de fala mansa conta que o medo o fez apertar o gatilho de uma arma.

"Ele começou me acusando de mexer nas coisas dele, sem prova. Minha tia me orientou e fiz um boletim de ocorrência. Aí as coisas complicaram. Ele começou a me xingar, pressionar, até quando falou que iria me matar", relata.

Para João, o "medo e a insegurança" foram responsáveis pelo desfecho trágico.

"Quando eu vi ele na porta da minha casa, achei que iria me matar. Peguei a garrucha, e atirei...".

Passados quase dez anos do ocorrido, mais maduro e com apoio da família que formou, com mulher e filha, João espera jamais passar pela experiência outra vez.

"Tenho certeza que se eu tivesse alguém mais próximo de mim, alguém que tivesse me tirado daquela casa, nada disso teria acontecido. Não vale a pena".

Relembrar a história que o fez viver atrás das grades fez transbordar a emoção. A respiração ficou pesada, e o homem desmoronou em lágrimas.

"Meu pai era um cara violento, agredia minha mãe, meus irmãos [...] Cara, já passei por cada situação, cada dificuldade. Quem se encontra numa situação dessas [alguém provocando], corra. Senão você vem parar num lugar desses daqui. Não desejo para ninguém".

Centro de Progressão Penitenciária (CPP) de Hortolândia (Foto: Fernando Evans/G1)

Depois de remoer as memórias e falar com tristeza do passado, João planeja um futuro bem diferente assim que retomar a liberdade.

"Eu me preocupo muito com a minha vida. Tenho que viver, trabalhar, dar a melhor estrutura para minha filha, esposa [...] dedicar um amor, um carinho por ela. Dar tudo o que nunca tive", avisa.

Para completar, João conta, com amargura, a decepção de ter virado parte de um levantamento que o chocou antes de viver como condenado.

"Sou um cara que procuro ler, me informar. Vi uma pesquisa que uma porcentagem bem alta da população carcerária é de nordestinos ou filhos de nordestinos. Isso me deixou tão triste. É duro ser estatística..."

Culpa e saudade do irmão

Carlos, de 17 anos, está internado há cinco meses no imóvel que fica na Vila San Martin. O olhar de desconfiança ao ser conduzido por funcionários para a entrevista também se traduz nas primeiras respostas, monossilábicas, e sempre reforçadas com "senhor" ou "senhora", em sinal de respeito.

A rotina, que pode parecer trivial para um adolescente que está do lado de fora dos muros altos e distante dos portões de grades amarelas, é descrita com calma. Deixa a cama pela manhã, toma banho, café, vai para a escola, estuda, pausa para o lanche. Volta às aulas, almoça, faz cursos em oficinas e, se possível, deixa tempo livre para TV, onde revê as paixões por futebol e outros esportes.

O garoto conta que tem um irmão de 14 anos, sob cuidados dos avós em Minas Gerais. Admite que gosta de fazer reflexões sobre a vida e, recentemente, decidiu apegar-se à fé antes de encerrar as jornadas.

"Comecei a ler a Bíblia desde o começo e vou até o fim. Já foram 20 páginas, tem dia que estou sem cabeça e não consigo. [...] Fico pensando no que vai ser a minha vida, no que eu fiz".

Carlos cumpre medida socioeducativa por ter matado uma vizinha da casa onde morava com a família, em Campinas. O motivo, explica, foi a raiva decorrente de uma dívida por drogas que ela teria, embora uma funcionária da Fundação conte que, na verdade, o crime ocorreu porque a vítima teria contado para a mãe do garoto sobre suposto envolvimento dele com o tráfico.

"Eu matei uma pessoa e vim parar aqui. Raiva, dívida, ameaça, tudo isso junto. [...] Ela tinha uma dívida comigo. Planejei um pouco, pensei como ia fazer, mas na hora mesmo que eu fiz, fiquei assustado, depois fiquei pensativo. Aí, passou uma meia hora [sic] e fui preso", conta ao mencionar saudades de estar junto com o único irmão e de brincar com o cachorro da família.

O jovem perdeu a mãe após ser apreendido e se emociona ao falar da reação dela após o ato infracional. Além de Carlos, a Fundação Casa contabiliza um adolescente internado em virtude de homicídio qualificado, e outro por causa de latrocínio - roubo seguido de morte.

"Falei com ela o que eu fiz, ela começou a chorar, falou 'por que eu fiz isso?'. Eu disse os motivos, não deu muito tempo fui para a delegacia. [...] Eles me encontraram, de certa forma minha mãe falou que era eu, me viu com a arma do crime, também tinha gravação e mostrava meu rosto".

O arrependimento, explica, também provoca sentimento de culpa pela perda da mãe e a distância do irmão.

"Deus tem um propósito para tudo. [...] Quero fazer a minha vida em Campinas [quando sair], trazer meu irmão para cá. Acho que vou embora lá para 2019, 2020, mas só Ele e o juiz sabem", ressalta o garoto que defende caminho certo e se interessa por trabalhos em marcenaria.

Troco, vingança  

A pele marcada pelo tempo e os cabelos já grisalhos sugerem uma idade muito maior que a realidade. Aos 53 anos, Marcos cumpre pena de 14 anos por um homicídio cometido em 1994. Foi preso quase 20 anos após o crime, mas sabia o que lhe esperava.

"Eu sabia que um dia eu ia ser preso, cair na prisão".

A morte chegou em sua vida para, conta, defender a família. Primeiro, viu o irmão mais novo ser agredido uma, duas vezes. Depois, ao tirar satisfação, teria sido ameaçado de morte. Comprar uma arma foi a solução. "Fui na feira do rolo, paguei 600 contos [...], com munição", relembra.

Com o revólver na cintura, um "três oitão", topou com o rival em uma festa de casamento. O encontro foi rápido, e fatal.

"Ele sacou uma 9 milímetros. Fui mais rápido e acabei matando ele", diz.

Com mulher e três filhas pequenas na época do crime, Marcos garante que bateu o arrependimento. "Se soubesse que ele estava ali, não teria ido lá, teria ficado na minha casa. Hoje eu me arrependo".

Servente de pedreiro, o condenado afirma que após crime se desfez da arma, já que não podia vê-la dentro de casa.

"Vendi logo depois. Saber que aquela arma tirou uma vida [...] Tô muito arrependido".

Para Marcos, o período atrás das grades trouxe a paz para uma mente perturbada após tirar a vida de alguém. Afirmando que jamais voltará a matar, pensa em sair e refazer a vida, encontra a mãe, com 83 anos, e reatar o relacionamento com a esposa.

"Estou pagando o que fiz. Agora durmo tranquilo e penso em sair daqui, trabalhar, fazer uma nova vida. Viver o presente, ser feliz".

Sem palavras

Casas ganham formas em uma folha de papel. Daniel, de 18 anos, demonstra apreço pelo grafite e, ao contrário de Carlos, se recusa a falar abertamente sobre o que o levou até a Fundação Casa. Segundo uma funcionária da unidade, que preferiu não ser identificada, ele foi apreendido por tentativa de homicídio, em virtude do "ciúmes de alguém que teria mexido com a namorada dele".

O rapaz se entusiasma ao valorizar os aprendizados ao longo de 11 meses de internação.

"Evoluiu a minha mente. [...] Tenho que pensar bastante, até nas amizades, quero sair daqui de cabeça erguida, sem dever nada para ninguém, arrumar um trabalho, estudar", ressalta.

Ele admite que também cumpriu medida socioeducativa em 2016, na cidade de Mogi Mirim (SP), e menciona que foi por motivo "quase igual". Sem saber exatamente por mais quanto tempo deve permanecer internado, Daniel diz preferir passar uma borracha no passado e estabelece metas.

"Só fiz coisa ruim, só dava desgosto para a minha mãe, mas agora estou aprendendo muitas coisas. Quero sair uma pessoa mudada, diferente, essa vida do crime não compensa. [...] Não gosto de falar sobre isso, senhor, traz muito arrependimento. Quero esquecer e ter uma vida nova", explica ao lembrar que tem duas irmãs e planeja continuar morando na metrópole.

Avaliação

A diretora adjunta da Fundação Casa na região de Campinas, Fábia Reis, destaca que as internações decorrentes de homicídios são tratadas como exceções, ao lembrar que a maioria cumpre medida por ter participado de roubos ou tráfico de drogas - ao todo, 236 de 273, o equivalente a 86,4%.

Segundo ela, cada adolescente pode ficar de seis meses a três anos internado, sem ultrapassar limite de 21 anos, e cumpre um programa individualizado onde são estabelecidas metas.

"Todo investimento está além do ato. A gente considera no trabalho psicossocial de compreensão, mas nosso foco também está em potencializar esse adolescente, investir na formação, educação, e possibilidades de mudança desse projeto de vida. A gente tem a consciência que não basta vontade dele, de querer mudar, e no investimento intramuros, é preciso oportunidades. Senão, ele vai sair [da Fundação] e esse projeto não vai concretizar. Acreditamos na possibilidade de mudança".

Vidas Contadas

Esta é a terceira reportagem da série "Vidas Contadas", que aborda o tema da violência em Campinas sob diferentes perspectivas. Na segunda-feira (23), o G1 trouxe um mapa que mostra onde ocorreram as 190 mortes violentas em 2017. Na terça (24), um perfil dessas vítimas.

O projeto apresentará nas próximas reportagens os problemas estruturais enfrentados pelas polícias para conter a criminalidade e a análise de especialistas sobre essa epidemia de mortes violentas na cidade.

* Os nomes dos presos e internados foram alterados para preservação das identidades.

Fonte:G1/globo

M9

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