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Valdir Silva

Coluna

Canibalismo

15 JUN 2022Por Valdir Silva08h:27

 

Ontem, por ocasião de uma aula de língua portuguesa, li com os estudantes o texto de Moacir Scliar, Canibalismo. No conto, Bárbara, mulher branca, rica e loura, após sofrer um acidente aéreo, juntamente com sua irmã adotiva, se vê em uma região inóspita e isolada num altiplano na Bolívia. 

À espera do resgate, Bárbara decide não dividir a comida de que dispunha com sua irmã adotiva que acaba cortando partes do próprio corpo para se alimentar e não morrer de fome. Tudo isso em vão, pois a irmã de Bárbara ao retirar parte do intestino grosso descobriu ter um câncer já em estado avançado nesse órgão. Para preservar a imagem da irmã, Bárbara, quando resgatada, afirmou aos jornais que foram "índios canibais bolivianos" que devoraram sua irmã. 

Os estudantes reagiram com indignação à atitude de Bárbara, pois ela poderia ter dividido os alimentos com sua irmã adotiva. Tentei argumentar que a comida era de Bárbara e ela dividiria se assim desejasse. Afinal, a comida era só dela. Os estudantes redarguiram, contestando que faltou à Bárbara algo essencial aos seres humanos: empatia e solidariedade. 

A discussão seguiu e eu lhes disse: "Eu percebi que, durante a leitura do texto, alguns estudantes estavam conversando e atrapalhando o bom andamento da aula. Todos alunos que atrapalharam a aula terão sua pontuação diminuída ou vocês escolham apenas um aluno para perder pontos. Dou um minuto para vocês decidirem se todos devem perder pontos ou apenas um entre vocês perderá um ponto". 

Não demorou um minuto e os estudantes já tinham decidido quem perderia um ponto, indicando um estudante. "Você estão certos dessa escolha?", questionei. Os estudantes assentiram  afirmativamente. 

Nesse momento, eu questionei: "Vocês são diferentes da Bárbara? Agiram solidariamente ao colega escolhido?" 

Aí foi a vez deles se questionarem. Será que dentro de uma situação-limite não somos todos iguais à Bárbara ? A resposta continua sendo um incômodo.