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23 de Outubro de 2017
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Saúde

Atleta do DF vence câncer de mama e lidera projeto de canoagem para mulheres mastectomizadas

Larissa Lima treina canoa havaiana duas vezes por semana com um time de 21 mulheres. Todas elas foram diagnosticadas com câncer de mama, fizeram mastectomia e se recuperam da doença.

13 OUT 2017Por Valdeir Simão e Youssef Nimer11h:23

Corpo fraco, imunidade baixa e cansaço são alguns dos efeitos mais fortes que mulheres em quimioterapia contra o câncer de mama sentem. A queda do cabelo e a mastectomia – cirurgia de retirada da mama que algumas precisam fazer – são os momentos auge da doença que atinge mulheres de todas as idades.

Quando a atleta de alto rendimento Larissa Lima recebeu o diagnóstico aos 39 anos, em 2014, ter que despedir-se dos treinos foi o primeiro grande impacto do câncer. “Foi horrível, passei sete meses na cama. Tive todos os efeitos colaterais, crises alérgicas, sentia dor nos ossos, nos músculos. Tomava 21 comprimidos por dia”, disse ao G1.

Um ano e quatro meses depois, livre das células cancerígenas, Larissa fez da experiência uma nova oportunidade para se reinserir nos esportes e criou um projeto de canoagem para mulheres que passaram pela mastectomia – assim como ela.

“Teve um momento que falei com Deus que não aguentava mais. Disse: vivi muito, foi ótimo, agora pode me levar”, contou aos risos. Hoje, ela é o pilar que sustenta a CanoMama, grupo formado por 21 mulheres que treinam duas vezes por semana.

Segundo Larissa, o grupo de canoagem rema contra a maré desde o princípio, porque desafia o senso comum de que a mastectomia restringe as possibilidades de exercício físico das mulheres que passam pelo procedimento. “Há até médicos que contra indicam atividade física para mulheres que tiveram câncer.”

A CanoMama tem base científica e se inspira em um projeto semelhante criado no Canadá há cerca de 20 anos pelo médico Don Mackenzie, que trabalhava com a seleção nacional de canoagem. Após a mulher dele ser diagnosticada com câncer, Mackenzie empreendeu uma série de pesquisas em reabilitação.

“Ele tinha a teoria de que a canoagem impedia que a mulher desenvolvesse uma complicação comum entre quem faz a mastectomia, o linfedema” – um acúmulo de líquido no braço devido ao bloqueio do sistema linfático e que ocasiona a perda da força muscular. Quando o corpo já não consegue mais drenar os líquidos, o linfedema pode chegar ao nível crônico, quando não há cura.

Após experiências com mulheres mastectomizadas, o médico conseguiu obter resultados positivos que comprovassem a prática da canoagem como método eficaz de evitar linfedemas e melhorar o condicionamento físico.

Em 2015, a CanoMama foi a primeira iniciativa a aplicar o modelo na América do Sul e Larissa Lima, a primeira mulher a experimentá-lo. Quem a introduziu nas águas do Lago Paranoá foi o mestre canoeiro Marcelo Bosi, escolhido para replicar o método de Mackenzie no Brasil.

“A presidente da associação lá no Canadá desenvolve ações ao redor do mundo para estimular a formação de times de remadoras e viu que não tinha nenhum por aqui”, disse Larissa.

Na época em que Bosi recebeu o convite, a atleta estava passando pelo tratamento do câncer e a notícia foi um estímulo para seguir na batalha contra a doença. “Ele foi lá em casa e me entregou a missão. Eu disse: ‘brother, se eu consegui viver desse negócio, isso aqui vai virar meu mote.”

“Eu sobrevivi. Então agora essa é a minha missão.”

Desde então, a CanoMama vem provando que a atividade melhora a saúde e a auto-estima dessas mulheres. Tudo regido por um protocolo, que avalia a condição física, nutricional, médica e emocional das participantes. O grupo conta com um educador físico e um fisioterapeuta voluntários – ambos especialistas em oncologia.

“Eu mesma não levantava o braço na orelha. Tem mulheres que não conseguem esticar e vão melhorando com o tempo. [A canoagem] devolve o tônus muscular e a elasticidade”, contou Larissa.

Mulheres fortes

Integrantes do projeto de canoagem CanoMama, criado em Brasília para reabilitação de mulheres que passaram por mastectomia (Foto: CanoMama/Divulgação) Integrantes do projeto de canoagem CanoMama, criado em Brasília para reabilitação de mulheres que passaram por mastectomia (Foto: CanoMama/Divulgação)

Integrantes do projeto de canoagem CanoMama, criado em Brasília para reabilitação de mulheres que passaram por mastectomia (Foto: CanoMama/Divulgação)

Formada por 11 mulheres engajadas no projeto desde 2015 e outras dez recém-chegadas, a CanoMama reúne guerreiras dos 32 aos 63 anos. Juntas, além de desbravar as águas do lago, elas formam um time que se apoia emocionalmente. “Viramos uma rede de apoio, tipo irmã de sangue”.

Segundo a atleta e coordenadora do grupo, a maioria das mulheres não tinha o hábito de praticar exercícios regularmente antes do câncer de mama. Da primeira turma, apenas três são esportistas: uma do futebol, outra do jiu-jitsu e Larissa, da corrida de aventura. “O resto nada. Uma, inclusive, pesava 130 kg, fumava e não fazia qualquer tipo de exercício. Hoje, ela emagreceu 25 quilos, corre, faz ginástica, yoga.”

“O esporte muda a vida toda.”

“As mais novas já estão todas doidas que nem a gente. É uma excitação louca! Praticar atividade física melhora a saúde, melhora socialmente, estimula a prática de outras atividades e isso previne contra todo tipo de doença”, disse Larissa.

Medalha de ouro

A primeira turma da CanoMama, formada em 2015, foi também o primeiro time de canoagem do Brasil formado exclusivamente por mulheres mastectomizadas. Em outubro do ano passado, ela ganharam os três melhores tempos no 1º Festival Ka Ora Brasil, que ocorreu em Santos, São Paulo.

Na competição, elas remaram em um “dragon boat”, canoa chinesa que comporta 22 pessoas e que ainda é usado pelo projeto canadense do médico Don Mackenzie. “Nós não temos o nosso, remamos em uma canoa polinésia parecida e sonhamos com nosso bote dragão”, contou Larissa.

As brasilienses competiram com cerca de 90 outras mulheres de países como Estados Unidos, Argentina, Chile e Nova Zelândia, todas vencedoras do câncer de mama. Nas provas, elas tiveram que percorrer uma raia de 300 metros no menor tempo possível em quatro baterias, ou seja, quatro chances. Foram as mais rápidas em três.

Consulta pra quê?

Larissa foi diagnosticada com câncer de mama em 2014, cerca de cinco meses depois de sentir um nódulo no seio. “Eu estava no meu auge físico, treinando para um campeonato mundial de corrida de aventura” – a modalidade inclui canoagem, mountain bike, tracking e navegação por mapa e bússola. A atleta treinava há 13 anos.

“Notei o nódulo, só que fiquei achando que era menstruação e fique enrolando, mas ele não sumia.”

Quando Larissa buscou um médico, a demora apareceu no diagnóstico: a primeira lesão havia entrado em metástase – quando as células cancerígenas se multiplicam – e provocou uma segunda.

A recomendação médica foi fazer a mastectomia e, em seguida, sete meses de quimioterapia. A reconstrução da mama, que Larissa fez cerca de um ano depois do tratamento, era a menor das preocupações naquele momento.

“Ninguém tá nem aí pra isso. A vida passa a ter outro sentido. Você está viva, com saúde, podendo acordar todo dia e fazer suas coisas. Esse é o maior valor que a gente aprende.”

Hoje, livre do câncer, a atleta precisa tomar o tamoxifeno pelos próximos cinco anos e aconselha a todas as mulheres que não percam tempo. “Às vezes eu nem teria a segunda lesão se não tivesse demorado. O crescimento é muito rápido, não pode vacilar.”

“Se detectar qualquer coisa suspeita, tem que correr atrás. Quanto mais cedo, as chances de tratamento aumentam.”

Projeto voluntário

O projeto CanoMama faz parte da Associação Cano Mama de Saúde Esporte e Cultura do DF, que conta com o trabalho voluntário de profissionais e com a ajuda de bases de canoagem, que cedem espaço temporariamente para a equipe treinar, como a Canoa Brasília, a Noah e a Mahalo.

Com a regularização de um CNPJ neste ano, a associação está em busca de patrocinadores para estruturar outros projetos. Segundo Larissa, a intenção desenvolver novas ações de reabilitação e reintegração no esporte para pessoas que tiveram outros tipos de câncer.

Quem quiser ajudar o projeto, pode entrar em contato pelo Facebook ou ligar para a Larissa, no 99216-1806. Neste sábado, a fim de obter recursos, a CanoMama vai montar um estande próximo à Mormaii do Pontão do Lago Sul durante o evento Remada Rosa, que ocorre das 8h30 às 14h.

Fonte: G1

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