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22 de abril de 2019
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Peritos querem saber se havia poliuretano nos contêineres que pegaram fogo no Flamengo

10 FEV 2019Por Paulo Ricardo08h:04

Peritos que investigam o incêndio no Centro de Treinamento do Flamengo querem saber se havia poliuretano na estrutura dos contêineres. É o mesmo material - altamente inflamável - usado na boate Kiss, que pegou fogo em 2013.

Os peritos que trabalharam neste sábado (9) no Centro de Treinamento do Flamengo se concentraram no material utilizado no acabamento interno dos contêineres. Uma fonte ouvida pelo Jornal Nacional contou que os peritos encontraram espuma em parte dos painéis, instalados como se fossem paredes.

No site, a NHJ, empresa que instalou os contêineres, informa que usa poliuretano injetado no meio dos painéis que, segundo a companhia, são de chapas de aço dos dois lados, mas até agora a empresa não respondeu se o módulo que pegou fogo era assim.

O poliuretano é uma mistura de produtos químicos que se transformam em espuma rígida após a aplicação. Essa espuma impede a passagem de ruídos e do calor.

A boate Kiss, em Santa Maria, no Rio Grande do Sul, usava placas com espuma de poliuretano. No incêndio, em 2013, o fogo se alastrou em minutos e matou 242 pessoas

Especialistas explicam que o poliuretano é altamente inflamável e que a fumaça carrega gases tóxicos.

No caso do Ninho do Urubu, os peritos querem saber se houve, de fato, uso de poliuretano e, principalmente, de que material eram as placas que revestiam a espuma; se eram mesmo placas de aço, como diz o site da empresa, ou se eram por exemplo de plástico ou compensado de madeira.

O engenheiro Gerardo Portela diz que o poliuretano não é adequado para o uso em alojamentos.

"Esse tipo de estrutura em sanduíche tem um limite de suportar calor. Então, enquanto é um princípio de incêndio e as pessoas estão acordadas para reagir com rapidez, ok, ele ainda pode ser utilizado, como no caso de um escritório. Com pessoas dormindo, como projetista, eu não especificaria esse material."

A tragédia pode ter sido agravada pelo fato de a estrutura ter apenas uma porta de saída, segundo os peritos.

"Faltou fazer uma análise primeiro do arranjo daquela instalação pra ver se tinha rotas de fuga suficientes para as pessoas saírem com mais de uma opção, faltou um sistema de alarme, de detecção de fumaça, de detecção de fogo, as pessoas terem uma opção de saída antes que chegasse ao ponto que chegou."

O Ninho do Urubu pertence ao Flamengo desde à década de 1980, mas só em 2010 o time profissional passou a treinar lá definitivamente, ainda em estruturas provisórias. No ano passado, o clube investiu R$ 26 milhões para modernizar o CT. Mas essa megaestrutura de cinco mil metros quadrados não tinha certificado de aprovação do corpo de bombeiros.

Segundo a corporação, o Flamengo deu entrada no projeto de segurança contra incêndios em 2010 e desde então os bombeiros têm feito vistorias para checar o cumprimento das exigências, nunca completamente atendidas.

A prefeitura diz que o Flamengo pediu o alvará de funcionamento do Ninho do Urubu em setembro de 2017, mas sem o certificado de aprovação dos bombeiros.

No mês seguinte, no dia 16 de outubro, a prefeitura multou o clube por manter o Ninho do Urubu funcionando sem o alvará e quatro dias depois emitiu um edital de interdição do CT.

De lá para cá, foram mais 30 multas.

Em abril de 2018, o Flamengo apresentou um projeto para fazer uma nova construção no terreno. Segundo a prefeitura, o local que pegou fogo constava em um projeto como um estacionamento e não como alojamento e nunca nenhum pedido foi feito para construção de dormitórios ali.

Em novembro de 2018, os bombeiros fizeram a mais recente vistoria no CT. E, mais uma vez, não emitiram o certificado de aprovação, porque ainda havia pendências em relação ao projeto de segurança. Em nota, a corporação disse que não interditou o Centro porque não constatou riscos que justificassem legalmente a interdição imediata.

No dia 12 de dezembro de 2018, a prefeitura aplicou a mais recente multa ao Flamengo por descumprir a ordem de interdição.

Apesar disso, a Prefeitura do Rio informou, em nota, que não tem poder de fechar as portas do CT de forma ostensiva e que qualquer outra atuação, além das medidas tomadas, não cabe à prefeitura.

"O que ficou faltando foi adotar as providências no sentido do cumprimento prático da sua decisão. Ainda que com o auxílio de força policial. Na pior das hipóteses, a prefeitura poderia ainda ter buscado uma ordem judicial mediante uma ação perante o poder judiciário e não o fez. E isso caracteriza uma grave omissão", disse Gustavo Binenbjom, professor de Direito da UERJ.

No fim da tarde, o diretor-executivo do Flamengo fez um pronunciamento. Ele falou que as multas e a falta de licença não têm relação com a tragédia.

"Na realidade, isso não tem nada a ver com o acidente que ocorreu. Nós temos algumas providências a serem tomadas pra tornar o CT plenamente legalizada, estamos trabalhando arduamente nisso, com o corpo de bombeiros. Sem contar que esse módulo de alojamento que nós estamos falando ele era conhecido por todos. Aquilo não era um puxadinho que a gente escondia, muito pelo contrário, era um alojamento confortável, adequado ao que se propunha e que nos mostrávamos pra todos com orgulho", disse Reinaldo Belotti, diretor-executivo do Flamengo.

Reinaldo Belotti não respondeu a nenhuma pergunta dos jornalistas. Ele disse que os aparelhos de ar condicionado do alojamento passaram por manutenção.

"Entre a noite de quinta-feira e o meio-dia de sexta-feira aconteceram vários picos de energia. Então, pode ser, a suposição existente agora é que esses picos de energia tenham influenciado no funcionamento regular do ar condicionado e ocasionado o princípio de incêndio", disse Belotti.

A companhia de luz do Rio informou que da manhã de quinta-feira (7) até o momento do incêndio, não registrou interrupção ou oscilação de energia.

Belotti também apresentou um certificado da CBF reconhecendo o Flamengo como uma entidade para formação de atletas, com parecer positivo da Federação de Futebol do Estado do Rio de Janeiro.

Ele mostrou ainda um documento, de maio de 2018, do Conselho Municipal da Criança e do Adolescente, confirmando que o clube apresentou a documentação necessária para funcionamento.

Flamengo, Prefeitura do Rio, Bombeiros, CBF. Enquanto causas e responsabilidades não são esclarecidas, resta a imagem de sonhos e vidas que foram tragicamente interrompidos.

O que dizem os citados

A Prefeitura do Rio de Janeiro declarou que os contêineres são considerados edificações e que precisam de autorização para serem instalados, mas, segundo a prefeitura, o Flamengo instalou essas estruturas sem aviso, nem autorização. Nós perguntamos à prefeitura por que nenhuma medida judicial para interditar de fato o CT foi tomada, mas não tivemos resposta.

Sobre o fato de haver uma única porta no alojamento, o corpo de bombeiros informou que não cabe à corporação determinar o número de portas e o tamanho de janelas, por exemplo, e que essas especificações são estabelecidas pelo código de obras do município e pelas normas técnicas.

A CBF afirmou que cumpre rigorosamente suas atribuições e que o documento emitido pela Confederação não substitui a fiscalização do Poder Público.

Fonte: G1 / Jornal Nacional

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