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No Brasil, a taxa de recusa de doação de órgãos por familiares é de 45%

18 SET 2026 • POR Redação/EC • 09h04
Fot: Divulgação Ministério da Saúde

A perda de um ente querido é uma das experiências mais dolorosas que uma família pode enfrentar, ao se deparar com a difícil decisão de autorizar ou não a doação de órgãos após a confirmação da morte encefálica, a fim de salvar a vida de pessoas desconhecidas na fila de espera. No Brasil, a taxa média de familiares que recusam a doação de órgãos gira em torno de 45% – um número que varia entre estados e até mesmo entre hospitais dentro da mesma cidade, evidenciando que a recusa depende não apenas das pessoas, mas também de fatores institucionais.

Segundo Cristiano Franke, presidente da Associação Brasileira de Medicina Intensiva (AMIB), muitos pacientes comunicam às suas famílias o desejo de doar órgãos, e muitas famílias também gostariam de honrar esse desejo. No entanto, ele observa que, em muitos casos, a falta de apoio aos familiares e a comunicação deficiente dentro dos hospitais – tanto públicos quanto privados – são um dos principais obstáculos para o sucesso das doações de órgãos.

“Muitas vezes, as famílias não recebem todas as informações necessárias em tempo hábil e por meio de um protocolo adequado para tomar a melhor decisão. E as equipes médicas frequentemente não estão preparadas para lidar com conversas difíceis, usando termos excessivamente técnicos e inacessíveis, ou adotando abordagens consideradas frias e impessoais em contextos inadequados”, disse Franke.

Como resultado, a associação, em parceria com o Ministério da Saúde, capacitou 2.534 profissionais de saúde entre setembro de 2025 e agosto de 2026 para auxiliar no processo de doação e transplante de órgãos. Até o momento, o programa superou sua meta inicial de 2.000 participantes capacitados em 25%.

O objetivo dos cursos desenvolvidos e oferecidos pela associação é aumentar o número de profissionais preparados para realizar esse processo, incluindo a melhoria da comunicação para reduzir a resistência das famílias em autorizar a remoção de órgãos de parentes diagnosticados com morte encefálica.

O treinamento também visa fornecer conhecimento especializado sobre as várias etapas que antecedem uma doação, abrangendo a identificação de potenciais doadores, a determinação da morte encefálica e o manejo clínico do potencial doador, tornando assim o processo mais seguro, acrescentou Franke.

“O fato de termos capacitado mais de 2.500 profissionais demonstra que estamos conseguindo levar conhecimento técnico àqueles que estão na linha de frente de um processo que exige muita responsabilidade. O diagnóstico de morte encefálica deve seguir critérios rigorosos, assim como o cuidado com o potencial doador e o diálogo com a família”, afirmou.

Entre as dificuldades que os familiares enfrentam para concordar com a autorização de transplantes estão a compreensão ou aceitação do diagnóstico de morte cerebral, crenças religiosas, medo de comprometer a integridade do corpo, desconfiança no processo e falta de conhecimento sobre os desejos expressos pelo familiar em vida – ou até mesmo a percepção de que os profissionais de saúde estavam mais interessados nos órgãos do que no paciente ou em seus familiares.

“As famílias também se preocupam com a possibilidade de desfiguração corporal, e nós explicamos detalhadamente como o procedimento e a restauração do corpo são realizados, de forma que não haja desfigurações visíveis durante os ritos funerários, como o velório. Elas levantam essa questão com muita clareza, e nós também precisamos explicá-la de forma completa e clara”, observou ele.

Segundo a associação, entre os participantes treinados até agosto, estão 933 médicos, dos quais 473 receberam treinamento focado na determinação da morte encefálica. Os demais participantes – que incluem médicos, enfermeiros, psicólogos, assistentes sociais, técnicos de enfermagem, fisioterapeutas, administradores, farmacêuticos, dentistas, biólogos, além de um nutricionista e um educador – receberam instruções sobre doação e gestão de transplantes e o uso da comunicação em situações críticas.

Até agosto, 73 cursos foram realizados em 23 módulos, envolvendo atividades em 25 estados brasileiros. Mais oito sessões de treinamento estão planejadas para o término do projeto.

Transplantes no Brasil

Em 2025, 15.940 potenciais doadores estavam cadastrados em todo o Brasil. Desse total, 4.335 se tornaram doadores efetivos. Entre as famílias entrevistadas, 4.200 não autorizaram a doação – o equivalente a 45% das entrevistas realizadas. No mesmo ano, o Brasil atingiu 20,3 doadores efetivos por milhão de habitantes, em comparação com 19,2 em 2024.

Agência Brasil