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20 de abril de 2018
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Entrevista

'Preso, Lula não deixa herdeiro político', diz cientista político

Para o professor Leonardo Barreto, Marina e Ciro devem se beneficiar com a prisão do petista

6 ABR 2018Por Redação/TR17h:07

A prisão do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, decretada na quinta-feira (5), deve complicar, e muito, a situação do PT nas Eleições 2018. Para o cientista político e doutor pela UnB (Universidade de Brasília) Leonardo Barreto, a estratégia que vem sendo usada pelo partido, de sustentar a narrativa da perseguição política, enfraquece a legenda e atrapalha até a defesa do ex-presidente.

O PT resiste em apresentar outros nomes e apoiar outros candidatos. Com Lula preso, e portanto com grandes restrições para fazer campanha, o cientista acredita que parte dos seus votos irá para os candidatos Marina Silva, da Rede, e Ciro Gomes, do PDT.

— Preso, Lula não deixa herdeiro político e isso potencializa outras candidaturas de esquerda. A estratégia do PT de associar a defesa com campanha política, apostando que Lula é um ativo, gera mais problemas do que benefícios.

Mesmo se o PT optar por ter outro candidato que não seja Lula, para Barreto Jaques Wagner ou Haddad não serão capazes de atrair os votos da população que associa Lula a um período de vida mais próspera. Sem Lula 100% na campanha também aumenta a perspectiva de votos nulos e brancos.

O cientista, no entanto, não acredita que os votos de Lula, como candidato preso, possam ir para o direitista Jair Bolsonaro (PSL).  Para ele, Bolsonaro atrai um eleitorado conservador, diferente do eleitorado petista.

Leia abaixo a entrevista:

Como fica o cenário eleitoral com Lula preso, a seis meses das Eleições?

Lula não vai deixar herdeiro político e isso potencializa as outras candidaturas de esquerda, que vão tentar disputar um eleitorado. O PDT apostava justamente na saída de Lula do cenário eleitoral. Acho que haverá um enfraquecimento muito grande do PT. A estratégia do PT de associar a defesa do Lula com campanha política, mantê-lo a todo custo, apostando que Lula é um ativo extraordinário, gera mais problemas do que benefícios. A indefinição gera um grande problema para as coligações e nos Estados, para governo e para deputado. Há senador que diz que Lula candidato gera muita coligação no Estado. Já Haddad, por exemplo, nenhuma. A manutenção da candidatura também atrasa a nacionalização um nome alternativo, pensando que a campanha terá apenas 45 dias.

Cria também problemas de narrativa. Como fazer uma campanha dizendo que ele está sendo perseguido pela Justiça? Significa que ele irá retaliar a Justiça? Sendo que tem uma parcela importante do Brasil que pede Justiça, é algo muito complicado. O PT irá se enfraquecer.

Há ainda outra questão. Existe um conceito da Utopia Regressiva, tese do professor do Insper Carlos Melo. Que explica que grande parte do eleitorado do Lula associa a imagem de Lula com período em que a vida foi mais próspera. Essa associação é do Lula, e não do PT. Nada garante que Lula vá transferir a utopia regressiva para outra pessoa. Para o PT ficou muito difícil.

Sem Lula nas Eleições, as narrativas de reforma ganham força. Porque candidatos poderão dizer que a vida melhora com as reformas.

Como será a campanha de Lula estando preso, já que líderes do PT dizem que ele será candidato mesmo preso?

O PT não tem ideia de como fará isso. O PT está em situação de desespero e há pessoas dentro do partido que reclamam da estratégia que a presidente Gleisi Hoffmann e Lindbergh Farias estão escolhendo.

Como será a campanha? Será que um publicitário irá entrar na cadeia para gravar vídeos? Será uma campanha por carta?

O PT quer denunciar uma perseguição política, mas isso terá um preço nas Eleições. Isso também tem um preço para a defesa de Lula, pessoa física. Porque ninguém ingressa em um tribunal superior alegando falta de provas, pois os tribunais superiores não discutem isso, apenas questões processuais. Mas até a defesa têm de manter a narrativa da perseguição, o que pode até ser uma crueldade porque compromete a defesa da pessoa física do Lula. Mas eu ouvi de um petista que não há pessoa física, então Lula irá para o matadouro.

Outro erro, na minha opinião, é jogar o povo contra o Judiciário, porque cria uma reação corporativista.

Além do centro-direita, Bolsonaro também deve usar a narrativa de reformas?

Bolsonaro até vai trabalhar a questão das reformas, mas o seu discurso está mais centrado na Justiça e em valores, está também relacionado à questão de Segurança. Quando ele diz 'vou dar arma para cidadão de bem' e 'não vou punir policial que matou um bandido', ele ataca a corrupção centrada no PT, mas não no governo atual, até possivelmente para ter apoio lá na frente. Quando ele diz tudo isso, ele está dizendo 'o meu governo vai ser o governo do cidadão de bem'. Isso é muito forte em termos de comunicação tem um potencial absurdo. Claro que é preciso se perguntar quem é o cidadão de bem, qual o conceito. Mas é um conceito muito aderente na campanha dele.

O centro direita irá defender a pauta reformista, mas reformista do ponto de vista liberal, das reformas que Temer começou. E o centro esquerda ao contrário, no sentido de desfazer as reformas [feitas no governo Temer, como trabalhista]. E na extrema direita uma candidatura em cima de valores.

Há pesquisas que detectam que votos brancos e nulos crescem sem Lula no páreo. Com ele preso, isso deve acontecer?

Pelas Eleições de 2016 e o pleito da Amazônia podemos dizer que há a tendência de crescimento de brancos e nulos, o que não necessariamente está aliado ao momento [prisão de Lula]. Mas há pesquisas que detectam brancos e nulos que ultrapassaria 50%.

Porque esse nível alto está mais relacionado ao desconhecimento dos candidatos, que conhecia o Lula como uma única alternativa pela questão da utopia regressiva.

Lula pode transferir votos para outro candidato do PT, caso desista?

Hoje Lula não transfere para outros candidatos do PT, para Wagner e Haddad, que pelas pesquisas não atingem nem os 15% de intenções de voto tradicionais do PT. Mas quando o jogo começa mesmo o cenário muda e questão dos brancos e nulas também deve se alterar, reduzir.

Há quem acredite que sem Lula, parte dos votos irá para Bolsonaro, que pode assumir a liderança nas pesquisas

Algumas pesquisas detectaram, mas acredito que seja mais uma resposta de protesto. Algo como ‘sem Lula vou boicotar o sistema’. Lula não deve transferir votos para Bolsonaro, não acredito. Porque o Bolsonaro está surfando numa onda, num movimento de refluxo. Explico: Nos últimos 30 anos no Brasil houve avanço das pautas progressistas, questões de gênero, questões raciais, e o PT foi o grande protagonista. A onda [Bolsonaro] é de reação a uma onda de 30 anos. Onde o conservadorismo estrutural encontra em Bolsonaro o seu porta-voz.

Por isso Marina e Ciro são os grandes beneficiários em termo de transferência de voto. Marina tem dificuldades na Rede, e acho que saída de Alessandro Molon causou um grande prejuízo. Mas a Marina ainda tem um perfil que a aproxima de Lula. Humilde, que lutou para vencer. Com agenda de esquerda e centro. Concordo que ela não conseguiu entregar nada de 2014 [quando teve 22 milhões de votos] para cá.

Ciro tem um vetor nordestino de centro esquerda, apesar de ter sido do governo Fernando Henrique. Tem o problema da instabilidade e do partido, que tem um presidente controverso. Mas acredito que o PT não vai apoiar ninguém de fora do partido, apesar de essa ser a expectativa de alguns.

A estratégia do PT atrapalha o partido, porque a indefinição impossibilita alianças locais e regionais, fundamentais para as Eleições.

Com isso o PT deve ter uma redução grande da bancada, que ainda é a maior na Câmara dos Deputados?

A bancada o PT deve ser reduzida pela metade. Hoje 57, deve eleger uns 30 deputados. A força do PT ainda é a grana. O partido tem o segundo maior orçamento do fundo eleitoral, a despeito de ter perdido 60% dos prefeitos nas últimas eleições. E sabemos que prefeitos são fundamentais, são cabo eleitorais para os deputados federais. Então tudo está trabalhando contra a reeleição de deputados federais. No Senado a situação também é complicada, porque tem gente com problemas. Ouvi de congressistas que o índice de renovação no Congresso nessas Eleições deve ser baixo, de menos de 30%.

Por que renovação tão baixa em um momento em que a população pede pela renovação?

O sistema se vacinou contra a renovação. A criação do financiamento público fez com que a grana se concentrasse nos grandes partidos. Partidos pequenos vão receber muito menos da metade do dinheiro se o critério fosse o fundo partidário. E há ainda o limite ao autofinanciamento que ainda está sendo discutido, o TSE ainda vai decidir sobre isso, e por hora possibilitou uma candidatura como a do Flávio Rocha, pelo PRB, que entra com recurso próprio.

Fonte: R7

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